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Frei Rodrigo: Uma tragédia criminosa anunciada

31/01/2019

Entrevistas, Notícias

Frei Rodrigo Péret, frade franciscano, tem atuação nacional e internacional na defesa dos valores da Justiça,  Paz e Integridade da Criação. No Brasil, ele compõe a Rede Igrejas e Mineração e o Grupo de Trabalho de Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e também faz parte do Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia (Sinfrajupe). Informado da tragédia em Brumadinho, Minas Gerais, Frei Rodrigo entrou em contato com os responsáveis pelos organismos dos quais participa e se dirigiu imediatamente para a cidade mineira que se localiza na Região Metropolitana de Belo Horizonte, capital do Estado. No meio de toda correria na qual sua vida se transformou desde sexta-feira, dia 25 de janeiro, concedeu esta entrevista ao nosso site “Franciscanos”. Acompanhe!  

Frei Gustavo Medella

Site Franciscanos – Frei Rodrigo, por favor, faça uma breve descrição do cenário que você encontrou em Brumadinho.

Frei Rodrigo – Estamos vivendo um momento de dor, de muita tristeza. É muito difícil encontrar uma família que não tenha um parente que teve sua vida ceifada pela lama derramada da Barragem da empresa Vale.  É o quadro de destruição ambiental. Estamos extremamente preocupados  porque a lama já avançou sobre o rio mais próximo, o Rio Paraopeba – que inclusive corta a cidade de Brumadinho -, já comprometendo o fornecimento de água para Belo Horizonte. O rio já se transformou num verdadeiro “mingau”, prejudicando todas as famílias que estão abaixo da região onde a barragem se rompeu. O Paraopeba é um afluente do Rio São Francisco, então infelizmente esta lama vai atingir a Bacia do Rio São Francisco.  Já estamos aqui em contato com a associação de pescadores, inclusive lá da Região da Bahia, que já estão preocupados, e com razão, porque nós já vimos a destruição que aconteceu na Bacia do Rio Doce, há três anos. É claro que este também é um momento de muita solidariedade, de estar junto com as famílias, que começam a fazer os primeiros velórios e enterros. O  Dom Vicente [de Paula Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte], que é o bispo encarregado da região, tem acompanhado este processo, trabalhando para que as famílias tenham o direito de realizar um enterro digno a seus entes que morreram por conta deste crime ambiental.

Site Franciscanos – Muitos especialistas têm insistido que este fato, como o de Mariana, não pode ser classificado como acidente, mas como crime ambiental, você concorda? Por quê?

Frei Rodrigo – Infelizmente, nós estamos mais uma vez diante de uma ação criminosa, que gerou uma tragédia muito grande e, poderíamos dizer, uma tragédia anunciada. Eu gostaria de destacar  uma frase do Bispo Auxiliar de Belo Horizonte, Dom Joaquim Mol, proferida por ele numa celebração que houve no sábado, dia 26, um dia depois do ocorrido: “Não se trata de um acidente, mas de um crime ambiental e de um homicídio coletivo”.  Acho que isso é extremamente importante!  A maioria dos óbitos é de trabalhadores.  É uma irresponsabilidade da empresa colocar o refeitório e todas as instalações administrativas abaixo à jusante [fluxo normal de um ponto mais alto para um ponto mais baixo] da barragem. Revela um total descaso com a vida humana, porque se sabe da fragilidade das barragens. Em Minas Gerais existem centenas de barragens, das quais mais de cinquenta estão em risco.

Site Franciscanos – Em nome da Família Franciscana e da CNBB você acompanha esta realidade da mineração no Brasil. O que leva à recorrência deste tipo de acontecimento?

Frei Rodrigo – A recorrência se deve a vários fatores. Vou citar quatro deles:

1) O primeiro é que nós vivemos num modelo consumista , de ganância, no qual se pensa cada vez mais em se obter lucro. Apesar da legislação brasileira considerar a mineração como atividade de utilidade pública, ela tem sido realizada como [se fosse] de utilidade privada e causado uma série de impactos ambientais, além destes desastres e crimes que matam e ceifam vidas.

2) Após a crime ocorrido há três anos na região de Mariana, que se estendeu por toda a Bacia do Rio Doce e chegou até o Estado do Espírito Santo,  afetando a atividade de famílias a 600 km de distância, ao invés de haver a adoção de um maior rigor no licenciamento, começou-se a fazer uma discussão de flexibilização e, infelizmente, é essa norma que se vê hoje em dia. Nós tivemos eleições recentemente, o que reforçou muito esta ideia, vendendo uma imagem de que os processos de licenciamento atrasam e dão prejuízo à iniciativa privada, que causam uma série de problemas, atrapalham o desenvolvimento. Falou-se também em enxugar estruturas públicas relacionadas ao meio ambiente etc.  Agora, tudo isso mais uma vez cai por terra. É necessário e urgente uma consolidação para salvar todo o sistema que vem sendo construído no Brasil há muitos anos, especialmente após a Constituição de 1988, o Sistema de Proteção Ambiental, que garante o Meio Ambiente, conforme insiste o Papa Francisco [Na Encíclica Laudato Si’], de uma maneira integral,  garante a vida e garante também o desenvolvimento, mas dentro de outras bases.

3) Outro elemento é que nós não podemos continuar com regiões, com territórios, que vivem sob o controle de grandes empresas, e a mineração promove isso. A força que uma empresa tem é muito grande. E a Vale é a maior produtora de minério – ou melhor, ela extrai o minério – do mundo. Onde a Vale está, ela se torna dona do território e as populações ficam à mercê. Isso precisa mudar!

4) A mineração, por ser considerada de utilidade pública, tem uma supremacia no território. É como se o subsolo tivesse mais força do que o solo onde vivemos, onde estão as cidades, os povoados.  O Município de Brumadinho, agora, sofre um prejuízo fantástico. Temos de mudar este modelo predatório que, na verdade, divide com a comunidade os prejuízos enquanto os lucros são embolsados por grupos muito minoritários.  Se fôssemos somar todos os impactos produzidos por esta atividade, veríamos que pagamos um preço muito caro pela mineração e que, deste modo, ela seria praticamente inviável.

Site Franciscanos – Quais são as suas expectativas em relação à reparação de todos estes danos?

Frei Rodrigo – Infelizmente, não podemos esquecer que temos de nos preparar para um processo longo, onde o Estado tem que assumir também a sua responsabilidade, mas a empresa também precisa ser devidamente punida e precisa responder por todos os seus atos e, uma coisa maior ainda: nós temos que talvez fazer uma grande moratória da mineração em Minas Gerais, porque da forma como está hoje não existe mais nenhuma segurança e nenhuma condição. Gostaria de frisar que este crime foi cometido na Região Metropolitana de Belo Horizonte. São milhões de pessoas que vivem nesta região.  Nós precisamos, agora, fazer com que as cidades discutam a questão da mineração.  Nós somos um Estado onde se faz mineração há trezentos anos e nunca como nestas últimas décadas tem se destruído tanto, tem se agredido tanto o meio ambiente. Além da solidariedade e das orações, são necessárias atitudes concretas e cidadãs para transformarmos este modelo de morte e destruição